sexta-feira, 24 de setembro de 2010
o colecionador de mundos
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Obama encontra finalmente o seu ritmo de governo na presidência
Barack Obama desceu do seu pedestal e começou a governar com uma mistura de idealismo e pragmatismo. Os Estados Unidos perderam um pregador, mas o que não falta nesse país amargamente dividido são pregadores. Finalmente, 14 meses após a posse de Obama, os Estados Unidos contam com o presidente reformista do qual o país necessita.
Passados 14 meses desde a posse de Obama, os norte-americanos finalmente têm um presidente. Eles perderam Santo Barack, o pregador mundial.
A ascensão dele foi ofuscante, e isso era parte do problema. Essa ascensão foi tão irreal quanto a chegada de um salvador. Foi uma ingenuidade, mas Obama fez uma campanha eleitoral ingênua: nós podemos mudar, eu darei a vocês um governo que cura.
Essa abordagem logo fracassou, porque o mundo real jamais é ingênuo.
Agora a esquerda nos Estados Unidos diz que Obama traiu não só os ideais dela, mas os do próprio presidente, afirmam que ele cedeu demais e foi muito brando, acusam-no de ser um professor na Casa Branca, um homem impotente, um Jimmy Carter negro. Já a direita vocifera que ele traiu os princípios norte-americanos e o vê como um comunista e um esbanjador do dinheiro do contribuinte. Isso o enfraqueceu. O governo israelense está se preparando para ignorar o presidente problemático até que os norte-americanos escolham um outro candidato para ocupar a presidência. O presidente afegão Hamid Karzai permite que o seu convidado de honra – o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad – fale mal dos Estados Unidos enquanto soldados norte-americanos protegem Cabul. Mas isso também provavelmente passará: o mundo real não é uma caricatura.
Estas são as semanas do retorno de Obama. Após a sua aparição e crucificação, nós estamos presenciando um processo de secularização. A Casa Branca está se reajustando e encontrando o seu equilíbrio. A reforma do sistema de saúde, finalmente aprovada, deverá fornecer cobertura a 32 milhões de cidadãos e representa uma vitória de Obama sobre o establishment de Washington que há anos é marcado pela paralisia congressual.
Obama deu continuidade a sua tendência a preencher cargos importantes por decreto presidencial. A seguir houve o avanço nas negociações para desarmamento com a Rússia, e depois disso ele seguiu para o Afeganistão. O que estamos presenciando é um início atrasado de ação por parte do presidente.
Um país agressivo e dividido
Todo mundo sabe que existem dois Estados Unidos. Franklin Delano Roosevelt era detestado por milhões de pessoas, Kennedy era odiado pela direita, Nixon pela esquerda, Clinton pela direita, Bush pela esquerda. Os Estados Unidos são um país agressivo. Às vezes isso faz dele um país dinâmico, outras vezes um país destrutivo.
As diferenças entre norte-americanos e europeus são maiores do que muitos europeus pensam. Para os norte-americanos conservadores, o consenso europeu de que um governo forte tem que ajudar os fracos é um ataque à liberdade. Para a direita norte-americana, “solidariedade” e “social” são palavras do vocabulário de provocadores.
Obama tentou modificar esse clima fazendo pregações sobre dever e responsabilidade, e obteve o resultado oposto: paranoia. Teorias conspiratórias e exageros pairavam sobre as entrevistas televisivas do presidente. E além disso houve o movimento Tea Party, e todas as advertências quanto a imigrantes, moradores das grandes cidades, intelectuais, pesquisadores do clima, ativistas da campanha contra armas, políticos, mulheres e negros – em suma, tudo o que ameaçaria os valores norte-americanos básicos.
Os Estados Unidos são um país complicado que passa por uma onda de mudança demográfica que o tornará ainda mais complicado. Nas próximas eleições, os Estados Unidos branco ver-se-á praticamente impossibilitado de vencer os negros e os imigrantes hispânicos caso esses dois blocos juntem forças. A classe média branca teme essa mudança e está nervosa. Senadores são alvos de cusparadas, Sarah Palin aconselha os cidadãos a “recarregarem”, as milícias se armam. O jornal “The New York Times” falou de uma “imitação em pequena escala da Noite dos Cristais”.
A profundeza do abismo não tem precedentes, e também é sem precedentes o fato de a direita estadunidense não ver mais Obama como o seu presidente. “Esse sujeito negro é o seu presidente” - sentenças desse tipo são uma novidade.
É claro que é possível governar em tal clima, mas não será um percurso suave. Um dos maiores erros de Obama foi acreditar na sua visão messiânica de uma presidência que transcenderia as linhas partidárias. Agora ele está governando com paixão, estrategicamente e com cabeça fria.
A democracia não exige harmonia, ela não exige sequer consenso. Tudo o que ela necessita é de uma maioria. Obama desceu do seu pedestal e ao que parece pretende seguir implementando reformas nos quase três anos de presidência que ainda tem pela frente. Um governo meio à esquerda, com um pouco de idealismo e uma dose de pragmatismo, se necessário.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Darfur is dying
Um game sobre o genocídio em Darfur
A idéia é tão genial quanto polêmica. Pode uma tragédia humana servir de matéria-prima para o entretenimento?
“Darfur is dying” (Darfur está morrendo) é um game que usa o genocídio na região localizada no oeste do Sudão como mote.
Este é o link: www.darfurisdying.com
O jogador escolhe entre oito pessoas (seis crianças, uma mulher e um homem) para desempenhar várias tarefas. A principal delas é buscar água, que será usada para o cultivo de vegetais e fabricação de tijolos.
Mas no meio do caminho há os temíveis “janjaweed”, ou as milícias armadas pelo governo sudanês que são as responsáveis por grande parte da matança contra etnias locais. Desde que Darfur virou sinônimo de holocausto, em 2003, calcula-se que 300 mil pessoas tenham sido mortas e outras 2 milhões expulsas de suas casas. A situação é descrita por agências humanitárias como a maior catástrofe em vigor hoje no planeta. O presidente do Sudão, Omar al-Bashir, foi indiciado por crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional.
Não sou grande especialista em games, apesar de jogar um Mario Bros. de vez em quando, mas “Darfur is dying” parece bem caprichado. Os gráficos são bons, e a dificuldade é razoável. Leva tempo até pegar a manha de coletar água no poço, desviando dos jipes com os janjaweed (eu, pelo menos, demorei). De vez em quando, soa um alerta: vem aí um ataque generalizado, e o pânico se espalha na pequena vila que seve de cenário.
Nenhum detalhe sórdido é poupado do jogador. “Amina”, uma personagem do jogo, foi procurar seu filho após um ataque e achou apenas sua cabeça decepada. “Melna”, mãe de dez filhos, perdeu sete deles após uma investida dos genocidas. E por aí vai.
A idéia é de um grupo de estudantes da Universidade do Sul da Califórnia, com apoio da Reebok Human Rights Foundation (uma ONG norte-americana) e do International Crisis Group (um dos mais importantes centros de pensamento do mundo). Pedem, no site, que espalhem “de forma viral” o joguinho para que as pessoas se familiarizem com a situação em Darfur. Há também links para mandar mensagens diretamente ao presidente Barack Obama.
E é moralmente condenável o que eles fizeram? Eu não vejo problema, ainda mais num mercado que tem títulos inspirados em outros fatos da história (como a Segunda Guerra Mundial e a do Vietnã). Mas gostaria de ouvir outras opiniões. Crises internacionais são guerras de propaganda. Ganha quem tiver a opinião pública a seu lado.
Para mim, o que os criadores de “Darfur is dying” fizeram foi encontrar uma maneira criativa de colocar um problema distante na escrivaninha de pessoas que jamais teriam contato com essa importante questão...
Escrito por Fábio Zanini
sábado, 7 de novembro de 2009
Estudante do minivestido é expulsa de universidade
Sindicância da instituição responsabilizou a aluna pelo tumulto ocorrido no campus, na noite de 22 de outubro.
Geyse ganhara fama nacional graças ao registro da confusão em vídeo. Pendurada na web, a peça tornara-se um hit.
Corpo recoberto por um minivestido vermelho, pernas à mostra, a aluna tivera de deixar a universidade, sob xingamentos, escoltada por policiais.
A explusão foi decidida em reunião realizada na madrugada deste sábado (7). Concluiu-se que Geyse “procovou” os colegas.
Alegou-se que era usual que ela comparecesse às aulas com roupas curtas e decotes generosos.
Ouça-se o assistente jurídico da Uniban, Décio Leonci Machado: A aluna “sempre gostou de provocar os meninos”.
Como assim? “O problema não era a roupa, mas a forma de se portar, de falar, de cruzar a perna, de caminhar”.
No dia da algaravia, disse o advogado da universidade, Geyse teria subido deliberadamente seu microvestido com as mãos.
Segundo o assessor jurídico, o gesto possibilitou “a quem vinha atrás” enxergar as “partes íntimas” da moça.
De resto, disse Décio Machado, Geyse teria entrado numa sala que não era a dela, interrompendo a aula pelo meio. Tudo porque um rapaz desejava conhecê-la.
Ao tomar conhecimento da decisão, Geyse reagiu com espanto:
“Como me expulsaram? Que absurdo! Eu fui a vítima, quase fui estuprada, como puderam fazer isso?” Ela rebateu as acusações:
“Eu estava segurando uma bolsa enorme na mão e um fichário na outra, como conseguiria levantar o vestido? Entrei na outra sala porque fui chamada”.
Afora a expulsão de Geyse, nenhuma outra providência foi adotada. Os colegas que a hostilizaram saíram incólumes da sindicância.
A universidade só teve olhos para o par de pernas. No mais, fez ouvidos moucos para os uivos e impropérios da legião de bocas desabridas.
Aluna com vestido curto não pode. Estudantes com comportamento de talibãs são admitidos. A decisão ainda vai dar muito pano para a barra.
Do blog do Josias de Souza
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Psicologia Social em poesia
Vou rondando experiências minhas e experiências dos outros. Minha experiência não corresponde com a do outro. Tampouco a que suponho imaginando-me em lugar alheio, repete a experiência de quem está lá. Encontro e desencontro do que dizemos e ouvimos, do que testemunhamos e do que imaginamos em nome dos outros: isso se chama conversar e faz julgar um tanto mais certeiramente as experiências compartilhadas.
Humilhação social: Humilhação Social: Jose Moura Gonçalves Filho
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Cafajestagem
MODOS DE MACHO - O cafajeste tem de ser um doce cafajeste
Por Xico Sá
(BR Press) - O cafajeste ou é um doce cafajeste, um cafajeste lírico, poético, romântico, decente... Ou é muito risível. Não há outra saída para este animal. Ou tem a manha ou torna-se caricato na primeira piscadela.
Ou é um dublê do Peréio ou apenas um ensaio de Didi Mocó Sonrisal. Didi é gênio, ora, mas é macaco de outro galho. O cafajeste amador é piada. Quer traçar todas e a nenhuma se devota. Blefe. Não sabe, nem nunca procurou saber, que, no amor e no sexo, não existe mensalão nem milagre.
O cafa poético não é nada óbvio. Sabe, inclusive, que nem só de bonitonas e gostosas vive o homem. É capaz de devotar-se àquela mulher que ninguém dá nada por ela. E, de repente, descobre que se trata de um sexo sem precedentes, um vulcão nunca dantes despertado para as artes da alcova.
O cafa amador parece vestir-se sob encomenda de um personal stylist: falsa malandragem, cafuçu de araque. E sempre com um pé no metrossexualismo ou na tendência. No cafa romântico qualquer peça lhe cai bem, a ciência da pegada está no olho e no drinque caubói, por supuesto.
O doce cafajeste entra no saloon e não atira para todo lado. Não gasta balas à toa. Sempre escolhe um alvo. O caricato desfalca o colt até com as mulheres dos amigos, embora não tenha arma para matar sequer uma formiga a caminho da roça.
Falso e romântico
O falso cafa é só garganta. Transando ou não, diz que transou, fez e aconteceu, e ainda espalha a lenda urbana. Seu caminhãozinho não perde a viagem... Mas areia que é bom, necas.
O cafajeste romântico é discreto. Acredita sobretudo, e caso a caso, na arte da conquista, na devoção pura e simples. Nem que seja por uma noite apenas e nada mais. Diante dele, toda mulher se sente uma bonequinha de luxo. O canalha amador faz falsas promessas. O cafa romântico, evoluído, sabe que a fêmea moderna pode muito bem estar querendo... apenas sexo.
O cafa caricato se acha. O doce cafa sabe que hoje está por cima e amanhã pode muito bem estar por baixo - mas que seja, pelo menos, de uma bela cria da nossa costela, claro, no bafo.
No catecismo do cafa romântico, não há nojinhos nem proibições - ele se sujava todo chupando manga na infância e hoje sabe, por causa dessa pedagogia, como o sexo oral é uma arte.
O amador é asséptico e limpinho, corre sempre para o chuveiro depois da transa.
O cafa amoroso, amigo, se pudesse, voltava para o útero por dentro da mulher mais linda da cidade, como na crônica do amor louco do velho safado Bukowsky.
O amador se contenta, muitas vezes, com um sexozinho virtual no Messenger. Sem cheiros, sem odores... Ele ainda não sabe que para curar um amor platônico é preciso uma trepada homérica, como diria o poeta Eduardo Kac, gênio de Copacabana, da bioarte e seus arredores
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Infidelidade e opiniao pública - Um artigo meia boca sobre um tema interessante (tb do fundo do baú)
Pascal Bruckner*
Quando o novo governador democrata de Nova York, David Patterson, sucedeu a Eliot Spitzer, o ex-intocável que se revelou culpado de ter freqüentado garotas de programa, qual foi a primeira iniciativa que ele tomou? Ele convocou os meios de comunicação e confessou ter traído a sua mulher em várias oportunidades com colegas de escritório.
A sua mulher, por sua vez, reconheceu ter "pulado a cerca" algumas vezes e jurou que o seu marido e ela já tinham superado essas provas. Isso causou estupor no cidadão europeu que ainda não se esqueceu do espantoso escândalo Lewinsky: em vez de apresentar o seu programa político, eis um oficial que promove um ato de arrependimento, por temer que os seus tropeços conjugais sejam revelados publicamente um dia desses. Resumindo, a primeira potência mundial, que está no processo de perder a guerra no Iraque e no Afeganistão, que reabilitou a tortura e que elegeu para dirigi-la, duas vezes seguidas, um dos chefes de Estado mais incompetentes deste período, está concentrando as suas atenções em miseráveis histórias de relações sexuais!
Qual fato está acontecendo, capaz de fazer com que a imprensa inteira, dos jornais de sarjeta até o muito sério "The New York Times", se apodere deste assunto privado e comente a respeito ao infinito? Vale recordar aqui os vexames proporcionados pelo ex-governador democrata Eliot Spitzer: um cruzado na luta contra a corrupção financeira, um campeão no combate contra a prostituição, ele mesmo freqüentava uma morena estonteante de 22 anos, Ashley Youmans, também conhecida como Kristen, de quem ele pagava os serviços entre US$ 1.000 e US$ 5.000 (entre R$ 1.700 e R$ 8.500), obtidos, segundo dizem, dos seus fundos de campanha eleitoral.
Aqui, mais uma vez, tudo isso aparece como perfeitamente normal para um velho europeu acostumado com os impulsos repentinos inerentes à natureza humana: tal como o capitão Haddock, presidindo em avançado estado de embriaguez uma reunião contra o alcoolismo, os apóstolos do pudor, nos Estados Unidos, inimigos do vício, do feminismo e da liberdade dos costumes, acabam caindo invariavelmente nos braços de prostitutas, com as narinas entupidas de cocaína; e são sempre surpreendidos em flagrante. Todo moralista acaba tropeçando nos próprios pés algum dia, para cair no abismo que ele denuncia: a própria Igreja católica, que preconiza a castidade e não hesita a expor os homossexuais à condenação pública, não está encobrindo, pelo mundo afora, os atos de milhares de padres pedófilos que estupram e abusam de crianças?
Aqui vai uma primeira lição da velha Europa: desconfiar a priori de todo discurso virtuoso. Eros se vinga dos seus censores e acena com um formidável gesto obsceno para o puritanismo ambiente. Além disso, o que pensar ainda dessas associações americanas de terapia familiar, que explicam que "as reações de uma esposa traída se parecem com os sintomas do stress pós-traumático das vítimas de eventos traumatizantes", como os atentados de 11 de setembro de 2001? O que dizer desses seminários para maridos infiéis que são reeducados da mesma maneira que dissidentes do ex-império soviético?
Para um europeu, o fato de confundir um desregramento amoroso com uma catástrofe coletiva constitui uma comparação escandalosa. Diante disso, só resta recomendar de maneira encarecida aos americanos para que eles tomem com o Velho Mundo lições de civilização: deste lado do Atlântico, conforme testemunham o cinema, a literatura, o teatro, todo mundo trai e é traído, e todos sobrevivem muito bem à inconstância do seu cônjuge. A verdadeira fidelidade revela ser mil vezes mais exigente do que uma estrita abstinência física, e caso o amor for forte, ele superará esses episódios.
Melhor ainda: o adultério, entre os europeus, tornou-se praticamente um objeto de veneração, simbolizando o protesto da criatura oprimida contra a convenção matrimonial. Desde o defensor do socialismo utópico Charles Fourier (1772-1837), que estabeleceu, no início do século 19, uma "Hiérarchie du cocuage" (obra de Fourier que pode ser traduzido, grosso modo, como "Hierarquia da 'corneação'". No Brasil, ganhou o título de "Guia dos Cornudos", editado pela Insular) hilariante que ridiculariza todos os "cornudos", até autores como Labiche, Feydeau, Guitry, que fazem rir com as infelicidades dos cônjuges espezinhados, as infrações ao contrato de casamento constituem um sem número de ocasiões para se divertir.
Ainda mais modernos, Sartre e Simone de Beauvoir não haviam estabelecido uma distinção entre amores contingentes e amores necessários para autorizarem a si próprios aventuras com outros parceiros, os quais eles trocavam entre si quando a oportunidade se apresentava? No plano dos costumes, a Europa é infinitamente mais sábia do que o Novo Mundo, com a sua horrorosa obsessão pela transparência. Até mesmo num casamento de amor, a monogamia estrita constitui um ideal desumano, e mais vale aprender a lidar com as fraquezas humanas do que tentar contê-las a todo custo, ao preço de dramas inúteis.
O filósofo, matemático e político britânico Bertrand Russell, em 1929, no seu ensaio sobre "O Casamento e a Moral", preconizava uma solução à francesa: uma grande tolerância para com caprichos adúlteros, tanto por parte do homem quanto da mulher, contanto que eles não interfiram em nada na vida do casal e não atrapalhem a educação das crianças. Resumindo, a quietude conjugal acomoda-se perfeitamente com pequenos acertos entre cônjuges, os quais são emblemáticos de uma sociedade refinada.
Contudo, se o analisarmos mais detalhadamente, o episódio Spitzer-Kristen nos oferece outros ensinamentos. O que está sendo sancionado em relação ao ex-governador de Nova York? A hipocrisia de um homem que jurava solenemente acabar de uma vez por todas com o tráfico de seres humanos, ao passo que ele freqüentava The Emperor Club, uma rede de prostitutas de luxo dirigida por um proxeneta notório. Portanto, é um tartufo, um hipócrita de marca maior que é derrubado, mas é a garota de programa que acede a uma notoriedade surpreendente: lá está ela, de repente, galgando orgulhosamente os degraus que a levam até os píncaros da glória, assediada com ofertas de filmes, de fotos de charme, de publicidades para produtos de beleza, de lingerie fina. Duas músicas que ela grava e vende num site musical lhe rendem US$ 200.000 (cerca de R$ 340.000) em poucos dias.
Será puritana a sociedade que pune o pregador e recompensa a pecadora, fazendo dela uma estrela instantânea? A sociedade que aponta o vício no representante da ordem moral e a candura numa "pretty woman" de Nova Jersey? É possível se perguntar se a obsessão pela infidelidade do outro lado do Atlântico não resulta do caráter artificial do contrato social americano, este pacto que foi inaugurado em 1787 entre homens de todas as condições, raças, origens, religiões. O casamento livremente consentido e complementado pelo divórcio possível torna-se então o espelho, o microcosmo deste juramento fundador da nação.
Quando vasculhamos as transgressões com tanta minúcia, é para melhor verificar a norma: ao se mostrar desleal no amor conjugal, o cônjuge infiel não estaria questionando esta aliança fundamental que une todos os americanos? Se a pequena pátria que constitui a família vacila por conta dos caprichos dos cônjuges, o que será da grande pátria, em caso de perigo? Lá onde a Europa, composta por nações antigas, ricas de tradições, dá mostras de certa desenvoltura, os Estados Unidos manifestam rigidez e intransigência: quando o mais fundamental de todos os laços, o do casal, é colocado em dificuldade, é o próprio futuro do país que pode estar comprometido. Uma nação recém criada, a América exorciza através das infrações conjugais dos seus dirigentes a sua própria fragilidade. Os interesses que estão em jogo são apenas superficialmente de ordem moral: eles são antes políticos.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Simon pede para Lula 'fechar a boca' no caso Sarney
Simon lembrou que foi a operação Boi Barrica, da PF, que obteve as gravações autorizadas pela Justiça, divulgadas pelo Estado, nas quais Sarney e seu filho Fernando Sarney tratam de nomeações para cargos de confiança de parentes e até de um namorado da neta. Simon disse considerar "infeliz" a intervenção de Lula por dois motivos: primeiro porque ao tomar partido de Sarney ele ignora a autonomia do Senado na busca de solução para seus problemas; segundo, porque avalia que o apoio a quem foi investigado pela PF desmerece o trabalho do órgão.
Simon e Cristovam estão convencidos de que a resistência de Sarney em permanecer no comando do Senado se deve ao apoio do presidente. É ele, na avaliação de Cristovam, a "base mais sólida da sua continuação na cargo, além da teimosia dele (Sarney) e da blindagem que o PT e seus aliados estão fazendo". "Lula vem cometendo um grave erro porque, como presidente, ele é um educador e o que ele diz a população ouve", afirmou o pedetista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
sábado, 4 de julho de 2009
Tristeza
02/07/2009
PT na vanguarda do atraso
Clovis Róssi, hoje na Folha de S. Paulo, faz o relato mais preciso do drama do PT: querer manter a pose de defensor dos pobres e oprimidos ao mesmo tempo em que ajuda a pior canalha da História da República a se perpetuar no poder.
..::..
PARIS - Indecente. Pusilânime. Vergonhoso. Que mais se pode acrescentar a respeito do comportamento do PT no episódio José Sarney? Xingar a mãe, não posso. É proibido pela etiqueta desta página. Mas seria o correto.
Não vou nem lembrar o passado combativo do partido e de seu líder, Aloizio Mercadante, em episódios anteriores à chegada ao governo federal. Esse passado já foi sepultado faz tempo.
Ajuda-memória: pelo episódio do mensalão, o procurador-geral da República, nomeado pelo presidente de honra do PT, um certo Luiz Inácio Lula da Silva, acusou a cúpula petista de formar uma "quadrilha". O Supremo Tribunal Federal, com o voto de ministros também indicados por Lula, decidiu haver indícios suficientes para aceitar a acusação e proceder ao julgamento, aliás em curso.
Fica claro que o passado de supostos campeões da moralidade pública está morto e bem enterrado. Mas o presente podia ao menos guardar um mínimo de coragem, de vergonha na cara. Podia, por exemplo, defender Sarney pura e simplesmente, fosse qual fosse o argumento ou pretexto a utilizar: necessidade de não tumultuar o cenário político, falta de elementos concretos para afastar o presidente do Senado -enfim, qualquer dessas desculpas que os políticos se habituaram a usar para serem coniventes com trambiques.
O que não cabia é deixar de apoiar Sarney mas apenas por 30 dias, que foi o prazo dado pelo partido para o afastamento do presidente do Senado. Tampouco cabia sugerir uma comissão para uma reforma administrativa da Casa, sem menção a punições pelas irregularidades já descobertas e já confessadas. Se algumas são legais, nem por isso deixam de ser todas vergonhosas, muito vergonhosas. O PT fechou enfim um círculo: passa de suposta vanguarda das massas à cúmplice do atraso.
crossi@uol.com.br
terça-feira, 21 de abril de 2009
A tensão aumenta em Atenas
Andy Robinson
Desde os tumultos de dezembro, o bairro universitário de Exarchia é território liberado para o público do clube anarquista Nosotros. Já não é mais só o campus universitário, refúgio antipolicial há 25 anos em homenagem aos 30 mortos na revolta estudantil contra a junta militar grega em 1973. Agora, o bairro todo é terreno proibido para a polícia depois da morte de Alexis Gregoropoulos, atingido por uma bala policial em dezembro, fato que detonou uma semana de tumultos em Atenas. "Nenhum guarda vai pisar em Exarchia por medo de provocar algo grande", afirma Vassilis Papadimitriou, porta-voz do Partido Socialista (Pasok).
A liberdade tem seus prós e contras. Na rua onde Gregoropoulos morreu - batizada de rua Alexis, sem consultar a prefeitura - se vê o positivo. Armados com furadeiras, um grupo de cidadãos transformou da noite para o dia um velho estacionamento em um jardim com árvores e balanços: a prefeitura planejava ali uma zona verde, mas os moradores não querem promessas eternas.
"Alguém veio e plantou esse plátano que custa € 400", disse Panos, um barbudo de vinte e poucos anos que participava de uma assembleia ao ar livre, em que se debatiam maneiras de reduzir o ruído na zona com a participação dos moradores. "Se não fosse pelos protestos de dezembro, isso não estaria acontecendo", acrescentou.
Em uma cidade urbanizada de forma anárquica devido à especulação imobiliária, capital de um país de corrupção endêmica em que "todas as instituições estão desacreditadas", diz Panos, a ação direta pode ser a única forma de estabelecer ordem.
Mas também existe um lado obscuro da nova liberdade ateniense. "Estamos em uma situação de terrorismo light", diz Stelios Kouloglou, diretor do novo portal de esquerda Tvxs.gr. Por terrorismo ele não se refere ao vandalismo mais ou menos politizado que já é comum em Atenas; os "carros queimados quase todas as noites"; a destruição de 80 lojas, seis agências bancárias e 37 carros de luxo no fim de março, no bairro de Kolonkai - ironicamente muito perto da loja de roupas da mãe de Alexis - por uma dezena de jovens encapuzados que protestavam contra o julgamento do assaltante de bancos anarquista Giorgios Voutsis-Vogiatzis.
O preocupante não é isso, diz Kouloglou, mas sim a proliferação de grupos de guerrilha urbana cujos alvos, além da polícia e dos banqueiros, também são os meios de comunicação. Em janeiro o grupo Luta Revolucionária - que disparou uma granada contra a embaixada dos Estados Unidos antes dos tumultos - atacou duas vezes escritórios do Citigroup e feriu gravemente um policial em um tiroteio. Um mês depois, um novo grupo - Sekta Epanastaton (Seita Revolucionária) - lançou uma granada caseira contra a sede da rede de TV Alter. Do outro lado, um grupo de supostos neonazistas atirou uma granada de mão pela janela de uma sala de aula em Exarchia, onde se reuniam rebeldes contra o serviço militar.
"Atenas é hoje a 'Laranja Mecânica', com uma violência descontrolada; e nos campi universitários todos querem fazer algo, como a Itália nos anos 1970", diz Kouloglou. "Os grupos violentos e traficantes de droga aproveitam" o histórico refúgio antipolicial da universidade.
Kouloglou - exilado durante os anos da junta - e outros da geração de protesto dos anos 1960 e 1970 se mostram ambivalentes diante da onda de politização e violência juvenil. "Minha filha tem 14 anos; seis meses atrás ela não se interessava por política; agora não fala de outra coisa; isso é maravilhoso, mas as mobilizações estão totalmente desconectadas do sistema político", afirma Yanis Varoufakis, economista da Universidade de Atenas.
Crescem os temores entre os antigos ativistas de que a violência juvenil vá provocar medidas severas por parte do governo conservador de Kostas Karamanlis. Ele já decretou leis de constitucionalidade duvidosa, como a proibição de capuzes nas manifestações, e a contratação de especialistas da Scotland Yard, cujos métodos para controlar tumultos custaram a vida do passante Ian Tomlinson durante a cúpula do G20 em Londres. Ainda que caia o governo Karamanlis, o vencedor das eleições - muito provavelmente o socialista Giorgos Papandreu - "vai herdar uma bomba", avisa Kouloglou.
Tradução: Lana Lim
domingo, 5 de abril de 2009
Das pessoas que admiro - Suzana Vieira
"Ingênua, sim. Burra, não"
Uma das atrizes mais bem pagas do país conta como
o marido, Marcelo Silva, que morreu de overdose
há um mês, a traiu, roubou e até a filmou nua para chantagear
Sandra Brasil
A atriz Susana Vieira, de 66 anos, casou-se três vezes e teve muitos relacionamentos. Nenhum deles foi tão traumático e expôs tanto sua intimidade quanto o último, com o ex-policial militar Marcelo Silva, que, aos 38 anos, sucumbiu a uma overdose de cocaína em dezembro passado. Bonita, sorridente e com 5 quilos a menos, Susana relata as cenas repugnantes a que foi submetida nos capítulos finais do seu casamento. A atriz conta que o ex-PM lhe surrupiou joias, dinheiro, eletrodomésticos e pretendia chantageá-la. Refeita de golpes na vida real que nem os mais criativos autores de novela foram capazes de imaginar, Susana diz que já conseguiu superar o escândalo e está pronta para amar de novo.
Seu marido, Marcelo Silva, foi preso e expulso da Polícia Militar do Rio por se drogar e espancar uma prostituta em um motel. Depois, a senhora descobriu que ele mantinha uma amante. Em seguida, Marcelo morreu de overdose ao lado dela. Qual foi o pior desses momentos?
Nunca vivi nada comparável ao primeiro grande baque, que foi o episódio do motel. Mas também nada se compara à nossa separação e à morte dele. Nem (a autora de novelas) Glória Perez seria capaz de escrever uma história como essa. Depois do escândalo do motel, perdoei o Marcelo porque jamais imaginei que ele aprontaria de novo. Mas nem o Marcelo nem aquela amante dele (a nutricionista Fernanda Cunha) eram inocentes. Só peço que não escreva o nome dessa mulher junto do de Susana Vieira, que é a vítima.
Muita gente apostou que o seu casamento terminaria depois do episódio do motel.
Eu chorava de saudade do Marcelo. Era uma mulher apaixonada. Ele era sedutor, me amava e a gente transava bem. Aliás, só soube agora que pessoas com deformidade da mente, como ele, transam muitíssimo bem. Não me nego ao amor e estou cheia dessa história de que mulher de 60 anos tem de namorar homem de 70. Sou uma estrela. Não estou nem aí para preconceitos.
As traições de Marcelo têm relação com o fato de que ele tinha quase trinta anos menos que a senhora?
Só diz isso quem se sente no direito de me julgar. Apareceram até uns psicanalistas para falar do caso da Susana Vieira, a sessentona que se casou com um jovem de 35 anos. Eles diziam que eu estava com um garoto. Por favor, quem tem 35 anos não é jovem nem garoto. Jovem é o Cauã Reymond (de 28 anos). Mais velho do que ele já é senhor. Sei o que estou dizendo. Antes de casar com o Marcelo, passei dezessete anos com o Carson Gardeazabal. Quando nós começamos, ele tinha 24 anos e eu, 43. E quer saber? Sou mais jovem em curiosidade, energia e disposição do que o Marcelo e o Carson juntos. Não fico procurando garotão em porta de universidade, mas não tenho culpa se sou desejada por jovens.
Por que a senhora resolveu se casar com Marcelo em vez de apenas namorar com ele?
Foi Marcelo quem quis casar. Pensei: por que não? Por que não me casar de noiva? Não é pecado nem crime. Eu estava apaixonada e não devia nada a ninguém. O problema era que ele tinha 35 anos e era policial militar. Aliás, o preconceito por ele ser PM era pior do que o da diferença de idade. Dias antes do casamento, soube que ele era dependente químico. Lidar com isso, com um adicto, foi uma novidade a mais para mim. Eu acreditei na reabilitação dele.
A senhora já superou a traição, a separação e a morte de Marcelo?
Foi difícil. Não chorei nem gritei, mas entrei em estado de choque. Fui parar no consultório da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva (autora do livro Mentes Perigosas: o Psicopata Mora ao Lado). Precisei de quatro sessões para me recuperar das revelações que a amante dele me fez ao telefone. O stress a que ela me submeteu equivale ao de um sequestro. Perto dessa mulher, a Flora (vilã de A Favorita) é boazinha. As coisas que ouvi dela eram de uma crueldade que nenhuma novela jamais mostrou. Falou até das posições preferidas na cama – tanto as deles quanto as nossas.
A senhora trouxe a mãe de Marcelo, Regina, do subúrbio para a Barra da Tijuca. O que será dela agora?
Minha querida, ela herdou do filho uma conta bancária muito boa, fruto dos desvios de dinheiro da reforma da minha casa. Levou um Polo, que passei para o nome do Marcelo porque ele recebeu mais de 20 000 reais em multas. Além disso, a mãe dele ficou com seis malas de roupas masculinas, 47 pares de tênis e relógios. Tudo de grife. Marcelo roubou minha alma, meu sentimento e muito mais. Pedia que colocassem 2000 reais a mais em notas de material de construção para embolsar a diferença.
Marcelo a roubou?
Tirou joias, perfume importado e até um aparelho de micro-ondas que ainda estava na caixa. Marcelo pôs a culpa no caseiro. Depois, eu soube pela amante dele que o Marcelo levou o micro-ondas para esquentar comida no flat dela. Quando as joias sumiam, ele também culpava os empregados. Eu não acreditava. Achava que tinha perdido. Ele as tinha dado de presente a ela. A mulher ficou até com meu BlackBerry. Ela me contou que ia escondida aos restaurantes, ensaios de escolas de samba e outros lugares em que estávamos juntos. Eles se encontravam nos banheiros. Transaram na minha casa em Búzios enquanto eu estava na praia. E foi na minha cama.
O que mais a amante de Marcelo lhe contou?
Que ele desviou dinheiro da obra da minha casa. Era para custar
110 000 reais. Saiu pelo dobro. Se ele me dizia que um tijolo custava 12 reais, não checava. Ela sabia de tudo, até de quanto faltava para pagar o telhado. Só soube desses absurdos depois que o Marcelo morreu. Os empregados não diziam nada porque ele os ameaçava. Dizia assim: "Antes de falar alguma coisa para a Susana, lembra que sou polícia. Você some". Sabia que ele pediu à revendedora da Honda que emitisse uma nota superfaturada? Fez a mesma coisa na Volkswagen quando comprei o Polo. Felizmente, ninguém aceitou. Aquela mulher me contou que o Marcelo fez até um filme das nossas transas. Mas eu nunca achei a gravação. Se for verdade, espero que nunca apareça. Mas achei outra, a do chuveiro, no dia em que meu cofre foi arrombado.
Que filme é esse? Quem arrombou seu cofre?
Marcelo. Ele se escondeu atrás da porta do banheiro para me filmar tomando banho de touca na cabeça. Ainda por cima, fazia close das minhas partes íntimas enquanto eu me lavava. Ele ia usar o filme para me chantagear. Isso eu soube pelo pessoal da praia. O cara de uma barraca contou para minha sobrinha que o Marcelo ia cobrar 500 000 reais para me dar a gravação. Achei esse filme quando meu cofre foi arrombado.
Como foi isso?
Um dia depois que a amante dele me telefonou, encontrei meu quarto revirado com o cofre aberto. Nunca dei o segredo ao Marcelo, mas, do mesmo jeito que me filmou escondido, ele me viu abrindo o cofre e decorou o número. Sumiram meus dólares, euros, reais e as joias. Resolvi esconder a moto antes que o Marcelo a levasse também. Aí, descobri no bolso da jaqueta de couro dele o filme do banho e um documento importantíssimo.
Que documento?
O nosso contrato de casamento, que diz que ele não teria nenhum direito a meus bens em caso de separação. O documento estava no cofre. Meu filho, Rodrigo, disse ao Marcelo que ele havia assaltado meu cofre. Ele respondeu: "Não fui eu. Eu estava dormindo". Ou seja, ele sabia que o cofre tinha sido arrombado. Liguei para a Globo para contar do filme. Fui à Justiça pedir a separação de corpos. Falei que corria risco de vida. Os meus empregados contaram à juíza que eram ameaçados. Aí descobri que sabiam dos desvios de dinheiro. Voltei para casa com seguranças e coloquei o Marcelo para fora. Ele disse que prejudicaria a minha carreira. Era uma referência ao filme do banheiro, que, àquela altura, estava seguro dentro do meu sutiã.
O que a deixou mais magoada: ser traída em público ou guardar segredo sobre os roubos?
O pior foi a traição espiritual e calculada dele. Se ninguém me contasse, eu podia estar me enganando até agora.
Como, aos 66 anos, a senhora foi tão ingênua?
Ingênua e generosa. Ainda bem. O mundo não é feito de gente má, ladrões e assassinos? Sou boa. O nosso problema não era a diferença de idade, de nível social nem de formação. Quantas pessoas vieram do nada, viraram famosas e não roubaram? O desnível cultural pode ser suprido por outras qualidades. Namorei o jornalista Renato Machado (da Rede Globo) e casei com Carson, que fazia motocross. Não falava só de vinho e ostras com Renato e nem só de moto com Carson. O Marcelo me beijava muito. Imagina se eu não gostava? Eu, que sempre gostei de sexo, amor e carinho? Se ele me completava nesse departamento, não precisava falar de museu.
A senhora se dizia muito feliz. Essas descobertas apagaram as boas lembranças?
Posso ser ingênua, mas não sou burra. Uma traição de sete meses é uma covardia com uma pessoa famosa. Fui obrigada a ler um artigo de uma revista que me chamava de ridícula. Dizia que eu devia arrumar garotos apenas para transar, e não me casar com eles. Estou cheia de ouvir que velha tem de arrumar garotão só para transar. O que é isso? Se o cara trai, é ele o errado, não nós. Aliás, idade não existe para mim. Em primeiro lugar, sou uma estrela brasileira, como a Fernanda Montenegro e o Pelé. Não se pergunta em que ponto nós três deixamos de ser estrelas por causa da idade. Não somos sessentões, somos estrelas: Marília Gabriela, Elba Ramalho, todo mundo que chegou lá... Em segundo lugar, minha vida não é pautada por encontrar homem. Sempre gostarei de alguém, sempre beijarei e transarei. A gente tem o direito de amar quem quiser. Quem é que não gosta de homem bonito? Homem velho tem ex-mulher que vai encher a paciência e filho que vai chatear. Envelhecer deve ser horrível, mas, como não envelheço, estou ótima.
Podemos concluir que a senhora poderá aparecer em breve de namorado novo?
Podem, sim. Mas não agora. Acabei de sair de um redemoinho. Mesmo assim, já rolou paquera. Estou viva e aberta para tudo, mas ninguém nunca mais toca no meu dinheiro.
Seus colegas a classificam como competitiva e temperamental. Como eles reagiram ao seu drama?
Da melhor forma possível. A ligação mais importante que recebi e que me fez chorar foi a da (atriz) Renata Sorrah, justamente alguém que a imprensa diz ser minha desafeta. Nunca tivemos um ai. Sempre contracenamos, ela como má e eu como boa. Mas Renata estava tão sentida quanto eu. Não crio caso com ninguém. Estou na elite porque sou excelente profissional. Acha que eu seria tão respeitada na Globo se eu fosse esse mau elemento que pintam? Agora, quando contraceno com ator relapso e medíocre, chamo sua atenção, sim, e digo que lugar de estudar texto é em casa. A Carolina Dieckmann trabalha como eu. Aliás, o meu melhor trabalho foi com ela e a Renata Sorrah em Senhora do Destino.
O casamento com Marcelo será um trauma que atrapalhará seus relacionamentos futuros?
Deus me livre de trauma, filhinha. Não tenho trauma nem de pai, nem de mãe, muito menos de ex-marido, ex-bandido. Só quero esquecer que conheci Marcelo Silva. Enquanto o Marcelo estava vivo, fiquei trancada em casa com medo do que ele pudesse fazer comigo. A partir do momento em que, infelizmente, morreu, estou livre. Já sofri. Emagreci 5 quilos de nojo do que ele e a amante fizeram. Só tive pena uma vez: quando vi pela televisão o corpo dele no chão da garagem. Fora isso, só tive raiva, raiva e raiva.
domingo, 29 de março de 2009
Tão popular e sem estrutura moral (ou Esperando Barack...)
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Muita tinta tem sido gasta ultimamente para anunciar o declínio da popularidade norte-americana em todo o mundo sob o governo Bush. As pesquisas nos mostram que atualmente a China é mais popular na Ásia do que os Estados Unidos, e revelam como são poucos os europeus que afirmam identificar-se com os Estados Unidos. Tenho certeza de que há uma verdade nessas pesquisas. Deveríamos ter feito um trabalho melhor no Iraque. Um Estados Unidos responsável pela prisão de Abu Ghraib, pela tortura e pela base de Guantánamo merece um polegar apontado para baixo.
Mas os Estados Unidos não são e nunca foram apenas estas coisas, e é por isso que eu também acho que os resultados de algumas dessas pesquisas são uma espécie de atos reflexos auto-indulgentes e um pouco tolos. A votação na última sexta-feira na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a questão do Zimbábue fez com que eu me lembrasse da razão disso.
Talvez os asiáticos, os europeus, os latino-americanos e os africanos não apreciem um mundo com excesso de poder norte-americano - para eles o "Mister Big" ficou um pouco grande demais. Mas o que eles achariam de um mundo com pouquíssimo poder norte-americano? Como as forças armadas e os bancos norte-americanos encontram-se excessivamente espalhados e diluídos pelo planeta, é esse o mundo para o qual esses países podem estar rumando.
Bem-vindos a um mundo com um excesso de poder russo e chinês.
Eu não sou um crítico nem da Rússia e nem da China. Mas há realmente algo de asqueroso quanto aos vetos aplicados pela Rússia e a China à tentativa, liderada pelos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU, de impor sanções específicas sobre o governo de Robert Mugabe no Zimbábue.
Os Estados Unidos apresentaram uma resolução simples ao Conselho de Segurança, pedindo um embargo de armamentos ao Zimbábue, a nomeação de um mediador da ONU e a aplicação de restrições de viagem e financeiras ao ditador Mugabe e às 13 principais autoridades militares e governamentais zimbabuanas por terem roubado a eleição no Zimbábue e basicamente reprimido violentamente um país inteiro em plena luz do dia.
Na primeira rodada das eleições do Zimbábue, em 29 de março, o líder da oposição, Morgan Tsvangirai, obteve quase 48% dos votos, contra 42% de Mugabe. Isso fez com que Mugabe e os seus asseclas iniciassem uma campanha de assassinato e intimidação contra os apoiadores de Tsvangirai, que acabou obrigando a oposição a se retirar do segundo turno das eleições simplesmente para que os seus integrantes continuassem vivos.
Antes mesmo do segundo turno, Mugabe anunciou que não reconheceria os resultados caso o seu partido, o ZANU-PF, perdesse. Ou, conforme ele afirmou: "Não vamos abrir mão do nosso país por causa de um simples X marcado em uma cédula eleitoral".
E então, é claro, Mugabe "venceu" em uma das eleições mais descaradamente roubadas da história - em um país imerso em desmandos, desemprego, fome e inflação. Cerca de 25% do povo do Zimbábue encontra-se atualmente refugiado em países vizinhos (eu tenho amigos próximos do Zimbábue, e uma das minhas filhas trabalhou lá em janeiro em um centro comunitário de ajuda aos pacientes de Aids). Em maio a Associated Press anunciou do Zimbábue: "A inflação anual sumiu neste mês, chegando a 1.063.572%, com base nos preços da cesta básica". Segundo a Associated Press, a moeda do Zimbábue tornou-se tão desvalorizada que "atualmente um pão custa o mesmo que 12 carros novos custavam uma década atrás".
Mas isso não importa. Vitaly Churkin, o embaixador da Rússia na ONU, argumentou que as sanções que os Estados Unidos e outros desejavam impor a Mugabe e seus assessores extrapolava o mandato do Conselho de Segurança. "Nós acreditamos que tais práticas são ilegítimas e perigosas", disse ele, descrevendo a resolução como "uma das tentativas mais óbvias de fazer com que o conselho ultrapasse as suas prerrogativas". Vetada!
Para Churkin, a campanha de intimidação e assassinatos movida por Mugabe não pareceu "ilegítima e perigosa". Só a resolução da ONU para acabar com a atitude de Mugabe foi considerada "ilegítima e perigosa". Vergonhoso. Ao mesmo tempo, a China está sediando as Olimpíadas, uma celebração do espírito humano, enquanto defende o direito de Mugabe de esmagar o espírito do seu próprio povo.
Mas, quando se trata de pura e repugnante corrupção moral, ninguém é capaz de superar o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, e os seu representante na ONU, Dumisani Kumalo. Eles fizeram tudo o que puderam para impedir qualquer pressão significativa por parte da ONU sobre a ditadura de Mugabe.
Conforme noticiou o "New York Times", o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Zalmay Khalilzad, "acusou a África do Sul de proteger o 'horrível regime do Zimbábue'", afirmando que o fato foi especialmente perturbador ao se levar em conta que foram exatamente as sanções econômicas internacionais que derrubaram o governo de apartheid da África do Sul, que há muito oprimia os negros do país.
Portanto, cunhemos agora a Regra Mbeki: quando brancos perseguem negros, quanto mais sanções da ONU melhor. E quando negros perseguem negros, qualquer sanção da ONU é demais.
O que me faz retornar aos Estados Unidos. Não somos perfeitos, mas os Estados Unidos ainda têm alguma estrutura moral. Há farsas que nós não toleraremos. A votação da ONU sobre o Zimbábue demonstra que isto não ocorre quando se trata desses países "populares" - chamados Rússia, China ou África do Sul - que não vêem problema em ficarem do lado de um homem que está pulverizando o seu próprio povo.
Então, é verdade que não somos mais tão populares na Europa e na Ásia. Acredito que europeus e asiáticos prefeririam um mundo no qual os Estados Unidos fossem mais fracos, onde líderes com os valores de Vladimir Putin e Thabo Mbeki tivessem maior influência, e no qual as vozes desesperadas por mudanças no Zimbábue fossem, bem, simplesmente caladas.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Na falta de inspiraçao...
Conteúdo riquíssimo, reflexoes importantes. Para que o grande público nao fique refém de caminhos fáceis e de rápida absorçao
De cara pra lua
Fazer a defesa de Francine ou Max num determinado momento passou a ser a defesa do casal que eles formam no BBB. É através do casal que seu caráter é questionado, é no casal que muitos procuram mostrar que existem incoerência e máscaras nesses dois jogadores. Alguns me questionam o porquê aqui no DCPL nós falamos tanto neste casal. Pois bem, um dos motivos é este, o foco no questionamento do ser ou não fake, além, é claro, do encantamento que eles despertaram. Max e Fran vêm passando ao longo deste BBB9 por muitas provas de fogo, tal e qual um conto moderno de Romeu e Julieta, onde alguns confabulam, rezam e praguejam para que tudo dê errado.
Até Bial surgiu com uma faca para dar o golpe fatal. E eles resistem, passaram pela pergunta do Bial sobre os sentimentos do Max nos primeiros paredões no início do programa e superaram a prova de fogo de ter o caráter de Francine questionado em rede nacional no programa ao vivo. Pois mais do que o casal, o que se questionou foi o caráter da Fran. E ela também passou por esta prova cruel com muita graça e valentia.
Eu não me importo se esse namoro vai acabar no dia seguinte da Final do BBB9, o importante é que ele tem sido o fio condutor que revela dois grandes jogadores desta edição, um norteado pela razão, pela vontade de fazer o mais correto, de querer jogar sem saber muito bem o que fazer, de ser justo, de somar ao programa, de somar à história do BBB. Max quer ser campeão. Qual deles não quer? Mas ele não é hipócrita e verbaliza sua vontade, ele não quer ser lembrado como o cara que fugiu de sua responsabilidade de jogador dizendo que não foi lá para jogar ou que se esquece das câmeras ao seu redor. E, no contraponto deste jogador tão pensado, Francine se revela em toda sua emoção.
Francine é única, talvez uma das mais interessantes personagens que já surgiu no Big Brother Brasil. Um BBB tão recheado da riqueza do ser humano, das nuances de nossa personalidade, dos grandes e pequenos defeitos que todos nós carregamos. Este não é um BBB linear e me entristece que o grande público fique refém de uma leitura que até por conta do tempo limitado da TV aberta tenha que caminhar por caminhos menores e de fácil absorção. Perdemos tanto tempo com o show que uma edição como esta, que nos permite ser ricos na análise de seus personagens, corre o risco de acabar sem termos conseguido desvendá-los por inteiro.
Assim como o BBB9 Francine não é linear, não é de fácil leitura, mas tem um carisma tão grande que supera todas as suas dúvidas sobre o mundo. Fran é generosa, talvez uma das pessoas mais generosas naquela casa, mas sua generosidade não é tolice, não a deixa cega, não a torna ingênua. Sua generosidade vem de sua vontade de cuidar dos seus, de acalentá-los, de servi-los sem ser servil, de cuidar do outro como uma demonstração de carinho e afeto. Francine abraça a causa dos amigos como se fosse sua, briga por eles, sofre com eles e busca não se desviar de seu senso de lealdade. Cobra o mesmo das pessoas, mas nem sempre tem o retorno merecido e desejado. È estourada demais, emocional demais, fala primeiro e pensa depois. Quando pensa.
Nós também colocamos Francine à prova. Quantas e quantas vezes a colocamos de quarentena? Quantas e quantas vezes tivemos vontade de invadir o Projac e dar umas boas palmadas nesta menina? Inúmeras vezes, incontáveis foram as situações em que nosso coração balançou entre a raiva e o amor pela jogadora e seus movimentos no jogo. Mas, Francine derrubou cada quarentena, cada reticência, cada cobrança que nós fizemos. Quando Francine nos faz rir, ela desmancha toda mágoa, toda dúvida, todo questionamento. E traz de volta nosso bem querer.
Em seu envolvimento com Max, Francine desabrochou, conseguiu explicar sua personalidade, suas atitudes. A metáfora da boneca que se transformou numa linda menina é mais do que verdadeira, a gente viu acontecer, ninguém veio nos contar, não foi fofoca de corredor, tampouco bate papo de bar. E no lugar da boneca divertida, mas sem vida, a gente descobriu uma mulher insegura, cheia de medos, com uma carência enorme, mas com uma capacidade de amar, de se doar, de se transformar que colocou Francine na galeria das grandes mulheres do BBB.
Francine conquistou nosso respeito, nosso carinho e nossa torcida. A gente vai ganhar essa parada? A gente vai conseguir que ela e Max consigam se mostrar como casal e como pessoas ao grande público? Sinceramente eu não sei. Mas sei que, por mais sofrido que seja a gente está junto com ela nessa jornada, votando muito para que ela volte desse e de outros paredões mais a frente. Torcendo que a generosidade vença a hipocrisia, que a lealdade vença as traições, que o amor vença o despeito, que a amizade se sobreponha ao oportunismo e que a alegria de Francine vença a adversidade e o ceticismo. Go Francine, Go!
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Alexandre Frota: o bad boy sai de cena
por Márcia Piovesan
No final do ano passado, Alexandre Frota chegou para esta entrevista na Record, em São Paulo, de peito aberto. Estava disposto a falar sobre tudo, inclusive das polêmicas nas quais já se envolveu nesses 45 anos de vida intensa. Sem o menor pudor, o hoje ator, diretor assistente e colaborador artístico da Record, onde está há três anos, falou da década em que mergulhou no mundo das drogas, do pesadelo que foi para ele fazer 12 filmes pornôs, do pavor da aids, do resultado assumidamente negativo que tudo isso gerou em sua carreira e muito mais. De cara limpa, alma lavada e extremamente grato à Record, que lhe abriu os braços na fase mais crítica de sua existência, Frota mostra-se outro homem. Tire você mesmo as suas conclusões a partir desse bate-papo cheio de revelações bombásticas.
tititi – Vendo você a mil por hora, temos a impressão de que você está feliz...
Alexandre Frota – Estou e muito. Justamente por estar trabalhando como nunca trabalhei na minha vida.
Você parece ser outra pessoa. Tem a noção disso?
Tenho. Lembro que há uns quatro anos, no programa do Gilberto Barros (o extinto Boa Noite Brasil, da Band), quando eu estava fazendo os filmes (pornôs) você me perguntou se eu não tinha limite na vida. E eu respondi que não. Olha que absurdo! Como é que um cara, um artista, declara em horário nobre, num programa de audiência visto por crianças e jovens, que não tem limites (na ocasião Frota afirmou, inclusive, que não usava preservativo para fazer os filmes)? Hoje, depois de tudo que aconteceu na minha vida, digo que tenho limite, sim, graças a Deus.
E passou por tudo o que exatamente?
Ah, a minha vida foi sempre cheia de altos e baixos, de conquistas e perdas. Por muitas vezes fui rico, depois fiquei pobre... Passei por coisas conturbadas, divergências criadas, polêmicas... Mas também tive coisas muito boas. A Record, por exemplo, foi a única emissora que abriu os braços pra mim, de verdade. E eu tenho uma gratidão enorme por essa casa. Não estou falando isso porque tô aqui hoje contratado, não. Mas eu devo a felicidade do meu atual momento, a pessoas como a Leonor Corrêa, que foi diretora do Márcio Garcia, e hoje é do Rodrigo Faro em O Melhor do Brasil. Foi ela quem me chamou há três anos e falou: “Frota, você não pode ficar fora da televisão”.
As pessoas curtiram a sua chegada?
Nem todas. Falavam até pra mim: “O Frota está acabado... É um absurdo ele ter um dia protagonizado novela da Globo (lá ele fez, por exemplo,Vereda Tropical, em 1984, e Sassaricando, em 1987) e hoje estar atuando como assistente de palco no As Aparências Enganam”. Enfrentei preconceito tive de provar dia após dia que era digno daquele voto de confiança, que era capaz. O próprio Márcio e o Paulo Franco, diretor de programação da emissora, que apostou em mim por meio de um contrato, me deram muito apoio.
E aí você não parou mais...
É, passei a fazer o Bofe de Elite graças a um convite do Tom (Cavalcanti). Comecei como ator, e no final da temporada, com a autorização do Bruno Gomes, diretor geral e criador do Bofe, estava escrevendo o quadro, ajudando na escolha do elenco e idealizando e produzindo as histórias com o Tom. Depois, conversei com o Vildomar Batista (diretor geral do Hoje em Dia e do Show do Tom), dei idéias para o Hoje em Dia e aqui estou criando e produzindo meus especiais....
E você ouvia pessoas discriminando você e encarava na boa?
Ouvi bastante. Mas sabia que tinha de ser assim. Eu vou te falar: tudo o que passo hoje foi porque plantei lá atrás. Eu optei por viver 10 anos a mil (aproximadamente de 1992 a 2002). Então, não posso querer agora que as pessoas entendam da noite pro dia que eu mudei. Muitas não acreditam. Não estou fazendo mea culpa, mas sei as coisas que fiz. E tudo isso tem uma conta a ser paga. Estou pagando.
Mas agora que você está super bem na Record, ainda enfrenta discriminação?
Ainda. Principalmente no meio artístico. Quer outro exemplo: recentemente um amigo cuja filha fez 15 anos chegou e falou: “Frota posso te pedir uma coisa?” E eu disse pode, claro. Daí ele disparou: “Não vai no aniversário da minha filha”.
E, afinal, como é que entrou na década desastrosa em sua vida?
Acho que a minha geração não teve preparo para o sucesso. Quando eu falo a gente, cito amigos como Felipe Camargo, Maurício Mattar, Roberto Bataglin... A gente não teve uma estrutura (para encarar a mudança repentina na vida). Ninguém chegou e falou pra gente: “vocês vão ganhar 300, gastar 100, aplicar outros 100”. A gente não teve isso, não foi preparado. Mas também não me arrependo. Por que se me perguntam: “Frota você viveu?” Eu vou responder eu vivi, e vivi bastante. Vivi, viajei, namorei, gastei, fui pra tudo que é lugar que quis na vida. Tive esse privilégio e também o de trabalhar com pessoas que marcaram a minha vida, como Lima Duarte, Cláudia Raia, Wolf Maia, Dennis Carvalho, Roberto Talma.
E dá pra acreditar que você mudou?
Olha, hoje eu sou um cara que trabalha dia após dia com a tranqüilidade, procurando qualidade e estudando. Consegui montar uma equipe em quem confio e com quem posso trabalhar em quase todos os projetos que faço. Foi o caso do especial da Madonna, o dos Embalos de Sábado à Noite para o Hoje em Dia. Não posso reclamar.
Você falou que passou a escrever e produzir. Já tinha feito isso antes?
Eu trabalhei por oito anos com o Talma (Roberto, diretor da Globo), escrevendo e produzindo eventos, que é o que eu mais gosto. Fizemos Tina Turner, o Paul McCartney, o Rock’n Rio, 85, no Brasil. Por isso acho que hoje poderia ser um grande diretor se tivesse tido cabeça.
E você se deslumbrou, mesmo, lá atrás?
Claro. Eu venho da periferia carioca, aí, de repente, com 17/18 anos, conheço a Claudia Raia, caso com ela e eu vou pra novela das oito! Fiquei com a cabeça a mil e não tinha estrutura para segurar tudo aquilo.
E quando perdeu as rédeas de sua vida?
Eu fiz boas novelas na Globo, e num certo momento comecei a achar que elas faziam sucesso por minha causa! E eu me perdi, justamente quando achei que era o tal.
Não é arrependimento, mas sei que poderia ter tido uma carreira diferente, brilhante. Depois de tudo o que vivi sei que nunca vou me ver na capa de uma revista carregando uma criança em cada braço, do lado de uma esposa.
Como assim, por que não?
Não sei cara. Eu estou com 45 anos... Vou contar uma coisa: estou apaixonado, mas a família da moça não me aceita. Então fica difícil. Mas é o que acontece, é a minha realidade. Já perdi namorada por causa disso (da fama de badboy).
O deslumbramento foi, mesmo, devastador?
É, aí eu me perdi e saí da Globo. Fui contra o sistema e me desentendi com o Daniel Filho (naquele momento diretor na emissora). Hoje fiz as pazes com ele, mas na época ele mandava e desmandava na emissora e eu não aceitava. Eu estava em Perigosas Peruas (1991) e ele queria me tirar da história para me por numa novela do Gilberto Braga, que é o sonho de todo ator. Mas o Alexandre Frota disse que não queria fazer a novela do Gilberto (ironizando sua própria atitude). Imagina...
E saindo da Globo...
Aí tive que começar a correr atrás, comecei a perder tudo. Em 2001 o Silvio Santos me levou pra Casa dos Artistas, em 2002 protagonizei Marisol. Em 2003 fui para a Turma do Gueto já na Record, algo muito legal. Eu gosto desse mundo urbano de violência me fascina, sabe? No meio de 2004 terminou a temporada do Turma e aí rolou meu momento de maior conflito por que existia toda uma discussão em torno do Alexandre Frota só de confusões que fizeram com que eu não fosse mais convidado para nada.
Ali vieram os filmes pornôs...
É...Diante da falta de grana, me olhei no espelho e falei: Você tem que fazer alguma coisa, tem família pra sustentar, um filho de 9 anos (Mayã, do relacionamento com Samantha Gondim), perdeu metade do que construiu... Aí eu pensei: bom, eu adoro sexo, então vou partir pro estúdio (fazer os filmes pornôs). Sabia que seria politicamente incorreto, que aquilo machucaria a sociedade, iria ferir minha família, mas precisava buscar aquele dinheiro ali para continuar sustentando mãe, irmã, sobrinhas, filho, todo mundo.
Você estava tão sem grana assim?
Tava! Aí procurei a produtora Brasileirinhas e eu fiz 12 filmes. O dinheiro foi bom? Foi. Veio num bom momento? Veio. Ajudou a resolver muitas coisas? Ajudou. Mas confesso que foi ruim pra mim. Foi difícil, desagradável, depois daquilo passei por uma série de situações e hoje a cobrança é muito maior. Aí, sim, que ninguém mais me chamava para nada em TV. Foi quando a Record me contratou.
Mas você chegou, mesmo, ao abismo, foi antes, por conta das drogas, não?
Sim, todo mundo sabe. Eu me envolvi com elas e fui ao fundo do poço por causa delas. Foi em 1994 quando achava que era “o cara”. Uma coisa leva à outra, dinheiro, amizade, poder. A droga ajudou a me destruir. Porque quando você começa a usar, a primeira coisa que perde é o sorriso. Depois, os amigos, os bens materiais, a vontade de continuar vivendo. A única coisa que a droga não me tirou foi o cumprimento dos compromissos.
Você era viciado em quê?
Maconha e cocaína.
E quando acendeu o sinal vermelho?
Não fiz nenhum tipo de trabalho para sair da droga. Eu só vi que ia morrer e parei, pensei na minha família e parei. Mas foram 10 anos naquela vida. Talvez eu seja privilegiado de Deus, porque poucas pessoas conseguem sair desse pesadelo sem uma ajuda profissional.
Sua mãe deve ter sofrido muito...
Ô! Mas não foi só por causa da droga, não. Passei aqueles mesmos 10 anos como chefe da torcida do Flamengo, que é tão casca grossa quanto droga porque você está arriscado a morrer dentro do Maracanã.
Na época dos filmes você foi internado às pressas. Circulou até a notícia de que teria morrido. O que rolou, na real?
Eu fiquei doente, sim, mas não por causa dos filmes e sim da noite (baladas). Tive uma broncopneumonia em estágio avançado, depois uma espécie de infecção generalizada. Quando cheguei ao hospital estava quase morto. Graças a Deus estou aqui.
Mas especulou-se que estivesse poderia estar com AIDS...
Mas não era.
E tinha consciência do perigo que corria de contrair o vírus e doenças?
Tinha, por isso eu sempre falei: ‘use camisinha porque a vida não é um filme’.
É, mas nos filmes você não usava preservativo. Não tinha medo?
Tinha. Cada vez que eu ia fazer exame... E olha que perdi vários amigos por causa da AIDS, o Lauro Corona, o Cazuza. Eu vivi no fio da navalha.
Você também já gerou polêmica com os ensaios para a revista G Magazine.
Eu fiz quatro capas da G e sempre optei por coisas bizarras. Então foi beijando um homem na boca, abraçado com dois caras na piscina, fotografei com travesti... Sempre teve uma coisa assim: se é para vender para o público gay, vamos vender liberdade! O público gay tem um negócio comigo muito forte... sei que sou um ícone gay, porque eles gostam de homem com cara de homem, tipo Malvino Salvador, Humberto Martins, Marcos Pasquim, Jackson Antunes. Parece falta de humildade o que eu vou falar, mas imagino que todo gay gostaria de tomar uma pegada minha. (risos). Mas não é a minha onda, não gosto de homem.
A verdade: você nunca transou com um?
Nunca. O único caso que tive, e que não foi caso, foi com a Bianca Soares (travesti descoberta na Casa dos Artistas (2004). Transei com ela em um dos filmes.
Mas ela é praticamente uma mulher!
É , mas tem p... (gargalhadas).
E você se lembra com quantas mulheres se relacionou nos 12 filmes?
Lembro: 73
Naquela década alucinante, como era sua vida amorosa?
Ela sempre foi muito intensa. Eu tive muitas mulheres, amei muitas. E acreditem ou não, eu sou capaz de amar duas mulheres ao mesmo tempo. É verdade, e isso não é ser galinha, eu consigo amar mesmo.
Quantas vezes você se casou?
Casei com a Claudia Raia, em 1986 (no total foram seis anos juntos), com a Daniela Freitas, a Simone (Ribeiro) e com a Andréa Oliveira, ex- Romário. O casamento durou 65 dias (risos). E sou amigo delas até hoje. Só a Daniela que depois de tudo o que fiz por ela disse que gostaria de me esquecer pra sempre.
E o que você fez por ela?
Paguei faculdade, curso de teatro, de radialista, a ajudei a ir para a TV...
Mas espera aí... você não a traiu, não?
Trai. Mas trai no final da relação, quando já não amava tanto.
Você é de pular a cerca?
Cerca, muro, buraco, o que tiver que pular. Parece machista falar isso, mas eu sou um cara que quando amo, amo, quando tô junto, eu tô junto... Mas, de repente, me dá uns cinco minutos e aí já foi. Acho que isso diminuiu bastante com a idade.
E hoje, está namorando?
Não. A pessoa que eu gostaria de namorar a família dela não quer vê-la comigo, mas levo de boa. É difícil uma família aceitar ver sua filha ou irmã com o Alexandre Frota e até entendo isso.
E quem foi o grande amor da tua vida?
A Claudia Raia. Só quero frisar que respeito demais a Claudia, o casamento dela com o Edson (Celulari) e a família linda que ela tem hoje. Porque algumas pessoas, certas vezes, quiseram criar situações entre eu, ela e o Edson. Mas nada a ver. Eu respeito muito os dois, ela merece o que está vivendo e o sucesso na vida profissional e pessoal.
É, essa virada deve ter feito bem...
Ah, sim...Agora, aos 45 anos, minha história é só essa aqui (na Record). Estou voltado para ajudar essa emissora e é delicioso trabalhar. Eu chego cedo, saio tarde, me envolvo em tudo o que posso me envolver. Fico umas 12, 13, 14 horas aqui e pretendo ser um diretor de ponta. E quando não estou trabalhando, vou ao parque ou ao cinema, malho... No teatro não gosto de ir. Talvez porque tenha feito peças de muito sucesso e não tive mais a oportunidade de produzi-las. Eu gostava de fazer aqueles grandes musicais como Splish, Splash e Blue Jeans (anos 80, com Wolf Maia).... Tenho tanta saudade daquela época...
Alexandre, o que é que falta pra você?
Falta construir uma vida mais tranquila, um canto meu e viver em paz. É isso, vou seguir em frente. Amado por muitos, odiado por muitos, mas respeitado por todos.
domingo, 14 de dezembro de 2008
O futebol, o Brasil e a meritocracia
Há ainda um cheiro de pré-história sob vários aspectos quando se trata da organização do esporte mais popular do país. Mas também são inegáveis alguns avanços no futebol.
A conquista do campeonato brasileiro de 2008 pelo São Paulo Futebol Clube ajuda a disseminar no Brasil um valor quase inexistente no país: a meritocracia. Vence quem se esforça e trabalha mais ao longo de todo o campeonato.
Os torcedores de outros times ficam chateados, claro. Reclamam do gol irregular do SPFC no jogo de ontem (7.dez.08), contra o Goiás, na vitória por 1 a 0 (o atacante Borges estava impedido). Fala-se também que o SPFC não jogou um futebol dos sonhos ao longo da competição (é verdade).
Os mais atentos também deverão notar que os erros de arbitragem ocorreram para todos os lados no campeonato. Para citar apenas um, em 17 de agosto, o Grêmio ganhou do São Paulo por 1 a 0 com um gol de Perea também totalmente impedido.
Sobre jogar um futebol mais vistoso, cheio de lances "a la seleção de 82", a pergunta que fica é: qual equipe no futebol hipercompetitivo de hoje consegue atuar dessa forma? Resposta: nenhuma.
Tudo somado, a vitória do São Paulo representa a premiação, por mérito, à equipe que mais se preparou e se organizou para vencer. O SPFC gasta R$ 12 milhões por ano em um centro de treinamento fora da cidade de São Paulo, onde treinam cerca de 400 garotos. O técnico do SPFC, Muricy Ramalho, é um dos mais longevos no cargo no Brasil, mostrando que a regularidade administrativa é um valor necessário não apenas em governos e empresas, mas também no esporte.
Antes, o futebol era cheio de octogonais e quadrangulares decisivos. Havia rebolos, repescagens e chances de viradas de mesa. Equipes completamente desorganizadas, sem interesse pelos treinos diários, acabavam vencendo um ou dois jogos no final do ano e sagravam-se campeãs.
Nos últimos seis anos, equipes tradicionais tiveram de se submeter a uma passagem pela segunda divisão do futebol. Palmeiras, Grêmio e Corinthians são exemplos de superação. Devem ser aplaudidos. Desceram e subiram pelos seus próprios méritos. Mereceram cair. Mereceram subir. Assim deve ser em todos os setores da sociedade.
Alguns classificarão de sociologia antropológica de botequim, mas há uma mensagem relevante no futebol. No passado, com a bagunça de campeonatos com 40, 60 e até 100 times, chaves coloridas e vale-tudo no final, a mensagem era: não adianta trabalhar duro todos os dias; no Brasil, no final sempre dá-se um jeitinho de obter uma vitória "no talento" (sic).
A imensa maioria dos brasileiros ama o futebol. O sistema de disputa dos campeonatos nacionais exerce grande influência sobre uma massa enorme de pessoas. A bagunça reinante no passado deseducava os cidadãos por exalar um péssimo costume: "Trabalhar e se esforçar para quê? Quando chegar a hora 'h', a gente sempre dá um jeito".
Pelo atual modelo de pontos corridos (iniciado em 2003 e historicamente defendido pelo meu amigo e também blogueiro Juca Kfouri), é sempre enorme a chance de o campeão ser o que mais se prepara e o que tem a estrutura mais séria. Todo jogo é importante. Todo dia é dia de trabalho. Para ser campeão brasileiro de futebol agora é necessário jogar todas as partidas como se fossem a última (comento no final as últimas suspeitas de fraude nas arbitragens).
Milhões de brasileiros humildes têm no futebol uma de suas únicas alegrias. Agora, de maneira subliminar, esses mesmos brasileiros podem enxergar no esporte algo além do jogo. As disputas entre os 20 times da elite do futebol são também um exemplo de como o mais aplicado acaba, quase sempre, premiado ao final.
A possibilidade de cair para a segunda divisão e voltar pelo seu esforço próprio é também um incentivo a todos os brasileiros.
Acostumado a fazer a cobertura da política brasileira, recheada de casuísmos e fisiologia, é alentador ver o futebol dar um exemplo de continuidade e regras claras.
Tudo isso não é pouca coisa. A meritocracia é uma característica vital de sociedades desenvolvidas. É bom que no Brasil comece a vigorar exatamente na mais popular de todas as manifestações culturais, o futebol.
Uma ressalva e uma revelação:
1) nem sempre o melhor, mais preparado e mais esforçado pode vencer no campeonato de pontos corridos. É verdade. São exceções que confirmarão a regra. Mas nos seis campeonatos até agora realizados, ninguém tem dúvida sobre a justiça dos resultados (Cruzeiro, Santos, Corinthians e SPFC foram os melhores quando venceram).
Há também sempre o risco do "fator extra-campo": quando árbitros são subornados ou forçados a produzir determinados resultados. É o Brasil profundo. O campeonato de 2008 teve (como outros anteriores) suspeitas sérias de pressão criminosa nos bastidores. Ainda não há notícias suficientes para julgar o que se passou neste ano, mas será lamentável se acabar surgindo evidência de manipulação de resultados por parte das arbitragens/dirigentes. Perderá o futebol, mas perderá muito mais o Brasil.
2) Torço para o SPFC. Hexa.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Arte para Todos: Luis Fernando Carvalho e a Televisao
"Capitu" moderniza Machado de Assis com tatuagem, rock e capítulos de RS 1 milhão
PopTevê
A partir desta terça (09), Capitu, enigmática personagem da obra de Machado de Assis, vai aparecer toda tatuada na série homônima da Globo. Como se isso não bastasse, todos os momentos da personagem serão embalados por uma mistura de rock pesado e de música clássica. O escolhido para realizar tal proeza é o polêmico diretor Luiz Fernando Carvalho, que se baseou no romance "Dom Casmurro" para criar uma Capitu moderna. "Quero desconstruir a imagem de que a literatura de Machado é sisuda. Ela é atual, moderna, atemporal", diz Carvalho, referindo-se à segunda série do projeto "Quadrante", que tem como objetivo retratar regiões brasileiras através de obras literária transformadas para a tevê.
Escrito por Euclydes Marinho e com texto final do próprio Carvalho, "Capitu" é fiel à obra de Machado - tanto na forma como no conteúdo. É o que garante Carvalho. "Não fiz nada com o Machado no sentido de amortizar. Tudo o que se vê no livro são palavras dele e elas estão na minissérie", assegura o diretor, que, assim como na primeira série do projeto "Quadrante", "A Pedra do Reino", baseada na obra de Ariano Suassuna, optou por trabalhar com rostos desconhecidos do grande público. A exceção fica por conta de Maria Fernanda Cândido, que interpreta Capitu na fase adulta, e Eliane Giardini, que dá vida à Dona Glória, mãe de Bentinho. "A impressão que tenho de 'Capitu' é que ensaiei como teatro, filmei como longa e vai passar na tevê", conta Giardini sobre a sua participação na produção.
Na série, que terá cinco capítulos e irá ao ar na faixa das 23 h, Carvalho adianta que vai manter a dúvida sobre a traição de Capitu e ainda a contextualizará ao processo cultural da atualidade. Não à toa, o diretor escolheu o rock como o ritmo principal da trilha sonora da minissérie. "Usei o rock porque gosto do ritmo e no desejo de fazer com que Machado fosse entendido não como um velhinho da Academia Brasileira de Letras, mas como um criador da alma humana", filosofa ele, que optou pelas bandas de rock internacionais Beirut e Black Sabbath, entre outras, para embalar a série.
Para ambientar a produção, Carvalho escolheu o Automóvel Club do Brasil, um palácio do século 19 localizado no centro do Rio de Janeiro, e que hoje está abandonado. Lá, foram encenados quase todos os atos de "Capitu". O local escolhido, segundo o diretor, deu um tom operístico à série. "O Automóvel passou a representar um pouco da alma da história de Dom Casmurro, se não um pouco da própria visão machadiana", acredita Carvalho, que deu ao ator Michel Melamed a tarefa de incorporar Dom Casmurro, um Bento Santiago que tenta unir as duas pontas de sua vida: a juventude e a velhice. "Gravar a série foi como a obra é, com muitas facetas, mas essencialmente transformadora e apaixonante", opina Melamed.
Através das lembranças em primeira pessoa desse narrador, a série é contada em duas fases. A primeira foca no amor romântico vivido pelos dois adolescentes, Bentinho (César Cardadeiro) e Capitolina (Letícia Persiles). Já a segunda retrata a imaginação corroída pelo ciúme que Bento Santiago (Michel Melamed) passa a sentir de sua mulher Capitu (Maria Fernanda Cândido) e seu melhor amigo Escobar (Pierre Baitelli). "A série respeita Machado no sentido de que o Luiz fez realmente um grande tratado sobre a dúvida", adianta Maria Fernanda.
Apesar do custo por capítulo de R$ 1 milhão, a série conta com pouquíssimos recursos cênicos. O chão, por exemplo, foi pintado de preto, como no filme "Dogville", de Lars Von Trier. É nela que o quintal e o muro que separa as casas de Bentinho e Capitu foram desenhados em giz. Apesar de tantas ousadias e, principalmente, da baixa audiência de "A Pedra do Reino", Carvalho não se preocupa com o ibope de "Capitu". "Se me deixar levar pelo Ibope estarei mudando meu ponto de vista. Se cair nessa, não faço nada", defende o diretor.
Quem é quem em "Capitu"
Dom Casmurro (Michel Melamed) - É o narrador da história. Tenta unir as duas pontas de sua vida, restaurando na velhice os momentos líricos de sua juventude. É um Bento Santiago sábio e melancólico.
Bento (César Cardadeiro/Michel Melamed) - Filho da elite brasileira do Século XIX, nasceu por um milagre de Deus. Perdeu o pai ainda pequeno e cresceu debaixo da saia da mãe superprotetora. Leva uma vida para lá de confortável e, por ter sido muito mimado, não aprendeu a conquistar nada. Apesar de ter muitas idéias, não tem coragem de colocá-las em prática. Ao sair do seminário, muda-se para São Paulo, onde forma-se em Direito e casa-se com Capitu, o grande amor de sua infância.
Capitu (Letícia Persiles/Maria Fernanda Cândido) - Sempre teve os olhos expressivos, uma mistura de menina e mulher. Aos 14 anos, parece ter 17. É bem mais madura do que Bentinho. Morena, olhos claros e grandes, usa os cabelos grossos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra. Dom Casmurro diz que seus olhos trazem um fluido misterioso e energético, uma força que arrasta para dentro, "como a vaga que se retira da praia nos dias de ressaca". Livre como uma cigana, saiu cedo do casulo para assumir sua forma de mulher. Maliciosa, transformou-se em mulher nos anos em que esperou Bentinho.
Escobar (Pierre Baitelli) - Esbelto e de olhos claros, é um rapaz que não olha de frente, não fala claro. O sorriso é instantâneo, mas ao mesmo tempo folgado e largo. Mais velho três anos que Bentinho, a quem conhece no seminário, é filho de um advogado de Curitiba e aparentado com um comerciante do Rio, que é um homem de fortes sentimentos católicos. Quando deixa o seminário, torna-se comerciante e se casa com Sancha (Bellatrix), amiga de infância de Capitu e filha de Gurgel (Thelmo Fernandes).
Dona Glória (Eliane Giardini) - Mãe de Bentinho. Ficou viúva aos 31 anos. Apesar de poder voltar à fazenda de Itaguaí, preferiu ficar no Rio, perto da igreja onde o marido foi sepultado. Depois de vender as fazendas e os escravos, comprou outros na cidade, além de uma dúzia de prédios, e passou a morar na casa de Matacavalos. Aos 42, mantém-se bonita e jovem.
José Dias (Antônio Karnewale) - Agregado da família de Dona Glória desde que Bentinho nasceu. Apareceu na fazenda vendendo-se por homeopata e acabou ficando. Com exageros de mãe e atenção de servo, zela pelos estudos e pela higiene de Bentinho.
Prima Justina (Rita Êlmor) - Vive de favor com Dona Glória, mas também por interesse da matriarca, que quer ter ao pé de si uma pessoa íntima. Magra e pálida, com a boca fina e os olhos curiosos, diz francamente tudo o que pensa.
Tio Cosme (Sandro Christopher) - Advogado, vive com a irmã, Dona Glória, desde que ela ficou viúva. Sem amor, cumpre as obrigações do ofício.
Pádua (Charles Fricks) - Casado com Fortunata (Izabela Bicalho) e pai de Capitu, é empregado de uma repartição. Certo dia substituiu o administrador da seção e passou a ganhar os respectivos honorários. Viveu 22 meses atirando-se a despesas supérfluas. E entrou em desespero quando teve de devolver o cargo.
Padre Cabral (Emílio Pitta) - É quem ensina latim, a doutrina histórica e sagrada da Igreja Católica a Bentinho. Velho amigo de Tio Cosme, costuma freqüentar a casa de Dona Glória.
Eus
Depois, passando na frente de uma grande loja, viu-se repentinamente diante de uma vitrine recoberta por um imenso espelho e ficou estupefata: aquela que via não era ela, era uma outra ou, quando olhou mais demoradamente, era ela, mas vivendo outra vida, a vida que teria vivido se tivesse ficado no país. Aquela mulher não era antipática, era até comovente, comovente demais, comovente de chorar, lamentável, pobre, fraca, submissa.
Ela foi tomada pelo mesmo pânico de outros tempos, em seus sonhos de exílio: pela força mágica de um vestido, ela se via presa numa vida que não queria e da qual não seria capaz de se libertar. Como se, no começo de sua vida adulta, ela tivesse tido diversas vidas possíveis entre as quais acabara por escolher aquela que a havia levado para a França. E como se essas outras vidas, recusadas e abandonadas, continuassem sempre à sua disposição e, enciumadas, a espiassem de seus refúgios.
Milan Kundera A Ignorância
sábado, 29 de novembro de 2008
A recusa ao infinito
O livro será minha despedida à adolescência, minha renúncia ao que Deleuze-Guatarri chamarão de a "ilimitação do desejo", e que Georges Bataille chamava de "a omnidade do possível", à qual só se chega pela recusa indefinida de toda determinação: a vontade de ser Nada se confunde com a de ser Tudo. "É preciso aceitar ser finito: estar aqui e em nenhum outro lugar, fazer isto e não outra coisa, agora e não sempre, ou nunca; ter apenas esta vida".
André Gorz, Carta a D.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Eu, estrangeiro
Irena bebe um modesto gole de cerveja, dizendo-se a si mesma: E se fosse Gustaf que lhes oferecesse vinho? Elas teriam recusado? Claro que não. Ao recusar o vinho era a ela que estavam recusando. Ela, tal qual havia retornado depois de tantos anos.
É nisto, justamente, que reside seu desafio: que elas a aceitem tal qual ela voltava. Saiu dali uma jovem ingênua, e voltava madura, com uma vida atrás de si, uma vida difícil da qual se orgulhava. Quer fazer de tudo para que a aceitem com suas experiências dos vinte últimos anos, com suas convicções, com suas idéias; será pegar ou largar: ou ela consegue sentir-se bem entre elas sendo o que se tornara, ou não poderá ficar. Organizou esse encontro como ponto de partida de sua ofensiva. Que tomem cerveja se fazem questão disso, ela não se incomoda, o que conta é que ela escolha o assunto da conversa e que se faça entender.
Mas o tempo passa, as mulheres falam todas ao mesmo tempo e é quase impossível manter uma conversa, menos ainda impor um conteúdo. Ela tenta delicadamente retomar os assuntos que elas lançam e encaminha-los para aquilo que lhes queria dizer, mas fracassa: assim que a conversa se afasta das preocupações delas, ninguém continua a escutar.
(...)
As outras mulheres a sufocam com perguntas: “Irena, você se lembra quando...”. E: “Sabe o que aconteceu quando...?”. “Mas não, com certeza você deve se lembrar dele!” “Aquele sujeito de orelhas grandes, você sempre caçoou dele!”
Até então não se interessavam por aquilo que ela tentava lhes contar. O que significa essa ofensiva súbita? O que querem saber aquelas mulheres que nada querem ouvir? Compreende rapidamente que as perguntas delas são especiais: perguntam para saber se ela conhece aquilo que elas conhecem, se se lembra daquilo de que elas se lembram. Isso lhe dá uma estranha impressão que não a deixará mais:
Primeiro, pelo total desinteresse por aquilo que ela vivera no estrangeiro, elas a amputaram de uns vinte anos de sua vida. Agora, com o interrogatório, tentam remendar seu antigo passado com sua vida presente. Como se lhe amputassem o antebraço e fixassem a mão diretamente no cotovelo; como se lhe amputassem as panturrilhas e emendassem os pés nos joelhos.
Milan Kundera, A Ignorância
domingo, 31 de agosto de 2008
O artista
Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte.
O crítico é aquele que pode traduzir, de um modo diferente ou por um novo processo, a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, como a mais baixa, das formas de crítica é uma espécie de autobiografia.
Os que encontram significações feias em coisas belas são corruptos sem ser encantadores. Isto é um defeito.
Os que encontram belas significações em coisas belas são cultos. Para estes há esperança.
Existem os eleitos, para os quais as coisas belas significam unicamente Beleza.
Um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.
A aversão do século XIX ao Realismo é a cólera de Calibã por ver seu rosto num espelho.
A aversão do século XIX ao Romantismo é a cólera de Calibã por não ver o seu próprio rosto no espelho.
A vida moral do homem faz parte do tema para o artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. O artista nada deseja provar. Até as coisas verdadeiras podem ser provadas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. A simpatia ética num artista constitui um maneirismo de estilo imperdoável.
O artista jamais é mórbido. O artista tudo pode exprimir.
Pensamentos e linguagem são para o artista instrumentos de uma arte.
Vício e virtude são para o artista materiais para uma arte.
Do ponto de vista da forma, o modelo de todas as artes é o do músico. Do ponto de vista do sentimento, é a profissão do ator.
Toda arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que buscam sob a superfície fazem-no por seu próprio risco.
Os que procuram decifrar o símbolo correm também seu próprio risco.
Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida.
A divergência de opiniões sobre uma obra de arte indica que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem por haver feito uma coisa útil, contanto que não a admire. A única desculpa de haver feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente.
Toda arte é completamente inútil.
("retrato de dorian gray", prefácio. Copiado descaradamente de supernoias, que por sua vez havia emprestado do blog da clarah averbuck)